Notícia
Carne Crua, romance de Marta Andrade escancara feridas do viver feminino no sertão mineiro
Publicado em 21 de Agosto de 2025 16:53
Depois de apresentar sua obra no Encontro dos Povos, no Caminho do Sertão, e em mesa durante a 23a edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a psicanalista e escritora botucatuense Marta Andrade lança seu livro “Carne Crua” (Editora Patuá). A obra é inspirada em Grande Sertão; Veredas, de Guimarães Rosa.
Nascida no município, Marta trabalhou como psicóloga no Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina de Botucatu, no Hospital Psiquiátrico Cantídio de Moura Campos e na Unesp, além da sua atuação na clínica psicanalítica. Em 2022, mudou-se para o sertão mineiro, que se tornou o cenário de seu romance, onde narra poeticamente as dores da vida, refletindo a inquietude visceral que atravessa o caminhar de muitas mulheres em nossa sociedade.
Por meio de uma protagonista enigmática e solitária, que escolhe viver uma vida nunca sonhada, a autora e poeta abre caminho por dentro da carne crua e, por isso, viva. Ao longo das páginas, Marta expõe as violências cotidianas e seculares que atormentam as mulheres quilombolas e de comunidades tradicionais, além do desafio que pode ser olhar para dentro de si e lidar com o desconhecido que escapa para além daquilo que se acha que é.
A narrativa se aprofunda na jornada de uma protagonista que está aprisionada a um modelo de amor, vivenciado por muitas mulheres, e transmitido de geração a geração. Nesse modelo, ainda enraizado em nossa contemporaneidade, dá-se o nome de amor a aquilo que no fundo é a colonização dos sentimentos, dizeres e corpos das mulheres impondo uma narrativa de silenciamento e subjugação pelo masculino. O tempo em Carne Crua transcorre de forma circular, há uma dança entre presente, passado e futuro, onde qualquer um destes pode terminar ou começar uma cena, em uma incerta passagem dos fatos. A personagem principal, que apostou em um amor, extrapolando territórios, vive a experiência da alteridade radical, seja geográfica, no amor e em si mesma, e é inspirada na escuta de mulheres reais de comunidades quilombolas do sertão mineiro, onde a escritora foi participar da trajetória sócio-eco-literário O Caminho do Sertão de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas, e atualmente coordena projetos junto a estas comunidades do território do Norte Mineiro.
“Há três anos, eu fui morar no norte de Minas Gerais, onde participei de uma travessia socio-eco-literária chamada ‘O caminho do sertão’, no Território de Grande Sertão:Veredas, e inspirada na obra de Guimarães Rosa. Participei desse projeto em julho de 2022 e me apaixonei. Sou psicanalista de formação e, por esses caminhos, passei a escutar as mulheres das comunidades quilombolas e tradicionais, e acabo escutando também geograficamente o território (a terra, a serra, as veredas). São comunidades afastadas, de difícil acesso, nas quais as pessoas têm poucos recursos de saúde e vivem em insegurança alimentar. Através da escuta da fala dessas mulheres, pude perceber a poesia e as dores desse lugar”, diz Marta Andrade.
Sobre a autora
Marta Andrade é psicanalista lacaniana. Escutadeira por ofício, enveredou pelos caminhos da escrita na tentativa de fazer passar algo que se escuta no vão das palavras. Na escuta do território geográfico e linguajeiro e das Comunidades Quilombolas do Norte de Minas Gerais, encontrou o som do silêncio e das folias, foi acolhida pelos moradores das comunidades por onde segue escutando o miudinho das estórias e histórias contadas e cantadas. Teve a honra de ser convidada a compor os grupos de dança tradicionais nas Comunidades Quilombolas dos Buraquinhos, Barro Vermelho 1 e das Comunidades tradicionais do Morro do Fogo e Serra das Araras, município de Chapada Gaúcha – MG. De lá, segue bordando com palavras e rodando a saia e o verso entre veredas e buritis.


